quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Sobre chuva e saudade
Achei que fosse seus passos na escada. Descendo lentamente. Vindo me fazer companhia. Pensei ouvir os sons dos seus pés caminhando na minha direção. Mas estava enganada. Era só a chuva. Pingos barulhentos, tão diferentes das tuas passadas. Como pude me enganar?
-Vai ver é saudade- conclui em voz alta enquanto puxava o edredom até o pescoço.
E o único remédio de pronta entrega para saudade era o sono. Fechei bem meus olhos. Até sentir que os cílios superiores emendavam-se com os inferiores. Talvez eles não se separassem mais. E eu não precisasse abrir meus olhos e ver o lado esquerdo da minha cama e do meu peito vazios.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Depois da chuva
Eu corri pra você. Não me importei com a chuva. Com meu cabelo. Com o vestido de seda. Eram seus olhos verdes que eu queria. Que se dane a bolsa cara e o vestido sofisticado. Quem se importa com o rímel borrado e a sombra preta que escorria por minhas bochechas?
Eu parecia um panda fora de habitat. Mas essa não era a questão.
Eu precisava era de você, que abriu os braços para me receber. Ai de você se fizesse o contrário!
Depois de toda aquela chuva, foi você que me aqueceu. Depois daquele temporal você foi minha calmaria, cara.
Vê se faz isso mais vezes, ok? Nunca deixe de ser meu guarda-chuva nesse temporal maluco que é eu e você.
domingo, 9 de dezembro de 2012
O vestido emprestado
Foi um tiro no peito que fez o vestido branco manchar-se de vermelho. "Maldição", pensou Elaine antes de desmaiar. O vestido era emprestado. Morreria com um vestido que não era dela. E que ela havia manchado. E não poderia lavar, porque estaria morta. Ah, meu Deus! Morta. Mortinha. "Estou morrendo", concluiu Elaine. E de repente o vestido manchado e emprestado ficou em segundo plano.
Mãos seguraram o tecido branco, puxaram Elaine. Um som estranho surgiu. "Deve ser a sirene da ambulância". Tudo ficou embaçado. Depois tudo ficou preto.
Ao acordar Elaine não estava mais manchada de sangue. Vestia uma camisola branca. Branca e emprestada.
Calma, Elaine. Algumas coisas demoram mesmo para mudar.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
De Edgar para Anna
Anna, meu bem. Aqui o frio parece que vai congelar até as pontas dos meus cabelos. Sinto sua falta mais do que sinto do Sol aquecendo minha pele. Pensar em sorvetes e ventiladores é quase um pecado aqui. Te comprei uma manta linda. Xadrez. Talvez ela chegue antes que eu. Mas eu não demoro, prometo.
Chegarei aí em tempo de consertar tudo, até nossa saudade. Chegarei em tempo de o Sol esquentar meu rosto e você meu coração.
Vê se te cuida, garota. Te amo.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
De Anna para Edgar
Tá um calor infernal aqui, Edgar. E a única coisa que me veem em mente é você. Passar calor contigo seria bem melhor. Até porque na sua casa os ventiladores são mais potentes e sua mãe sempre tem sorvete no freezer. Sorvete de flocos. Com calda de chocolate.
Mas, o motivo dessa carta não é a gula ou o calor que sinto. É saudade. Quanto tempo você está fora? Uma semana? Parece uma vida, cara. Dá para voltar logo, sim? Preciso de ti. A torneira ainda esta pingando e a porta rangendo. Preciso de ti. A janela emperrou e não tem santo que abra.
Preciso de ti, Edgar. Porque te amo, mas não espalha.
sábado, 1 de dezembro de 2012
Só Valentina
Jogada no sofá, Valentina ouvia cada gota de chuva que se aventurava a bater no teclado. O chimarrão tinha acabado e a eletricidade se fora. Uma fina vela azul era a única fonte de luz da casa. Valentina estava sozinha. Ela e o chimarrão vazio. Ela e a luz da vela. Ela e a chuva de verão. Ela e seus pensamentos mirabolantes. Ela e seu livro de mistérios. Ela e seu sofá aconchegante.
Ora, então, afinal de contas, Valentina não estava sozinha. Estava?
Ora, então, afinal de contas, Valentina não estava sozinha. Estava?
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