domingo, 21 de maio de 2017

Silêncio composto

-Mariana, vem que o mate tá pronto! - gritou Dona Milena, puxando o xale mais pra perto do pescoço. O frio tava daqueles de renguear cusco e ao pegar a térmica do chimarrão o xale preto de bordados coloridos quis escorregar dos ombros da dona da estância.
-Pronto! - disse Mariana entrando correndo na cozinha. As bochechas estavam vermelhas por causa de três coisas distintas. Uma era pela correria de não deixar Dona Milena esperando. A segunda era o frio que cortava a pele clarinha da guria. A terceira tinha a ver com Rodrigo. Mas Mariana preferia não pensar no caso.
-Onde tu estava guria?
-Perto dos cavalos.
Dona Milena sorriu.
-Viu meu filho?
-Rodrigo?
-Foi o único que eu pari, Mariana.
-Ah, sim. Tava lá também. Disse que já vem, vai ficar mais um pouco com o Baio.

Se abancou um silêncio leve que durou umas três cuias de chimarrão. Foi então que entraram os dois ao mesmo tempo. Pai e filho. Antônio e Rodrigo.
-Tá, mas que silêncio estranho! - disse Antônio com aquela voz de trovão.
Mariana sorriu, sempre parecia que até as coisas respeitavam a chegada de Antônio. No primeiro "bom dia" de Antônio o chão de madeira  sempre tremia em respeito.

-Que estranho nada, Antônio - replicou Dona Milena- a gente tava naquele silêncio bom do chimarrão.

Era verdade, pensou Mariana. Mas é que ela também estava lembrando doutras coisas. Seu silêncio era composto de lembranças, diferente do silêncio de Dona Milena. Olhou para Rodrigo que estava distraído mexendo nas panelas pra descobrir o que ia ter de janta. Pelego se enroscou nos pés do dono que se abaixou para acariciar as orelhas do cusco. Mariana achou que o silêncio de Rodrigo também era composto de lembranças, mas não pode ter certeza.

Antônio que não era dado à silêncios começou a contar histórias da lida do dia. Dona Milena começou a rir do jeitão do esposo. Quando percebeu-se Mariana estava também a contar histórias e a rir alto. Depois de algum tempo, ao olhar para o lado percebeu também Rodrigo que a observava e aí teve certeza. Antes, o silêncio de Rodrigo também era composto de lembranças

sábado, 1 de abril de 2017

Casa de campo

Uns dois anos ou mais. Essa era a estimativa de tempo que Valentina fazia. Uns dois anos ou mais que ela não entrava na casa de campo. Estava tudo empoeirado e coberto de panos brancos. Brancos de cor e brancos de poeira. Enquanto o sol do fim do dia entrava pela janela enorme da sala de jantar, Valentina passeava os dedos indicador e do meio pela mesinha lateral. As mãos passavam e as lembranças iam junto. Jantares, almoços, alguns cafés da manhã.
Valentina, de repente, se perguntou porquê fazia tanto tempo que não visitava a casa de campo. Uma saudade imensa tomou conta do peito dela. Porém, não era uma saudade triste. Era saudade de ação. Valentina começou a tirar panos e poeiras, a arrastar móveis, a ligar para os amigos da época da casa de campo. De hoje não passaria. A vida voltaria para a casa de campo. A vida voltaria para Valentina.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Fio de linha

Enquanto eu te via puxar a linha para cima e de volta para o tecido eu me sentia bem. Sempre gostei de te ver costurar, ainda mais quando essa costura eram os ajustes finais do meu vestido de formatura.
-Gostou? - tu perguntou, terminando mais uma linha de pedras azuis.
-Tô amando! - exclamei.
Tu sorriu. O teu sorriso era mais lindo ainda que todos os vestidos que já tinha costurado e bordado durante todos estes anos.
-Obrigada, minha querida!
Retribui o sorriso. Logo o vestido estaria pronto. A formatura estaria acabada. Mas não toda a gratidão que eu sinto por você, ela será eterna.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Chá de Qualquer Coisa

Eram passados das 18h e Pedro já havia colocado as folhas do Chá de Qualquer Coisa que tinha encontrado na gaveta para ferver. Sabia que com aquela chuva, alguém precisaria muito de um Chá de Qualquer Coisa bem quente.

-Argh! Essa chuvarada não dá pra querer! - anunciou Alice entrando em casa ensopada de chuva e brabeza.

-Eu disse que era pra levar um guarda-chuva - respondeu Pedro servindo Chá de Qualquer Coisa na xícara favorita de Alice e a pondo em cima da mesa.

-Pffff - fez Alice pegando a xícara favorita dela e cheirando a fumaça de Chá de Qualquer Coisa.

Depois de um tempo, largou a xícara favorita na mesa novamente.

-Não vai beber? - perguntou Pedro

-Não

-Não seja teimosa, Alice.

-...

-Não vai me responder?

-...

-Então bebe o Chá!

-Não

-Tu só sabe falar "não", Alice?

-Não - ela disse gargalhando.

-...

-Qual é, Pedro foi engraçado, vai!

-...

-Pedro?

-...

-Tá, eu bebo  o Chá!

-Essa é minha garota.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cheiro

Cheiro de roupa de cama limpa sempre fez Anna sorrir. Naquela noite fria, não foi diferente. Depois de um dia bem cansativo e produtivo também, ela resolveu que merecia roupas de cama limpas e cheirosas. Colocou as cobertas de lado, trocou lençóis e fronhas, organizou cobertas e se jogou na cama.

Fechou os olhos e respirou fundo o cheiro da fronha branca e perfumada. Soltou um grande "hmmmmmmmmmmmmmmm!" de satisfação. Foi como uma parabenização pela ideia genial que teve de trocar as roupas de cama antes de deitar. Cinco minutos depois veio Edgar, deitou-se ao seu lado. Anna então percebeu que havia algo que a fazia sorrir mais que cheiro de roupa de cama limpa. Era cheiro de Edgar.

-Nossa, teu cheiro é melhor que de lençol e fronha limpos - quem disse isso, por mais absurdo que seja, foi Edgar, fazendo Anna sorrir.

-Faço tuas as minhas palavras - ela respondeu - e melhor que amaciante é ser amaciada por você.

Ninguém achou o trocadilho maravilhoso, nem Anna, nem Edgar. Mas quem precisa de trocadilhos bons quando se tem amor e roupa de cama limpa?

Não deixa o café esfriar

Faz tempo que eu tento te escrever algumas linhas, Pedro. Da última vez eu nem me lembro o que eu te disse. Parece que faz mais tempo do que eu acho ou não? Quando tu não tá aqui o tempo passa de uma forma estranha, Pedro. É tipo esperar muito, mas sem ter tempo para fazer nada.
Como eu sei que tu volta e que tu sempre responde, eu te envio essas cartas, Pedro. Mas que fique claro que eu não gosto de ter que enviá-las, elas significam que tu está longe e que eu não posso dizer as coisas que quero, Pedro, olhando nos teus olhos verdes.
Eu tenho muitas coisas, Pedro. Dentre elas saudade de ti. Amor por ti.
Tenho paciência também. Por isso eu te espero.

Já sabe, né?
Não demora. Café frio fica ruim.
Com amor,  saudade e vontade de tomar café
Alice.

domingo, 12 de junho de 2016

Noite curta e vida longa

Os dois dormiram pouco na noite passada. Mas não porque estavam fazendo uma clássica maratona de séries. Não era porque ficaram olhando meia dúvidas de filmes ou porque a janta atrasou. Eles foram deitar cedo, mas o sono veio tarde, quase na hora de acordar.
Os dois dormiram pouco de ansiedade para o dia seguinte. O dia em que ele chegou primeiro, de terno. E ela uns vinte minutos depois, de vestido. Branco. Nas mãos, um buquê de flores de maracujá.
Nesse dia, era de manhã cedo, eles trocaram uns anéis, disseram uns "sim" e pessoas de várias cidades, da família ou não, jogaram arroz nos dois.
Depois teve dança, brindes e bolo. Muito bolo, aliás.
Mais tarde teve amor, teve carinho.
E pra sempre: teve uma vida feliz, com trancos, com barrancos, mas, principalmente longa e feliz.